terça-feira, 18 de setembro de 2012

Altamira está lotada e sem estrutura

(Foto: Bruno Carachesti)
Altamira está lotada e sem estrutura  (Foto: Bruno Carachesti)O sonho do marabaense José Martins é ficar até o final da obra. Depois, com a indenização comprar um caminhão e viver de fretes. Martins é motorista de ônibus que transporta trabalhadores para os canteiros de obra da usina hidrelétrica de Belo Monte. Integra um exército de homens que aportaram em Altamira em busca de trabalho. Com carteira assinada, o emprego aumentou em mais de 150% na cidade. Mesmo que sejam temporários, houve movimentação na cidade. Menos do que esperavam os principais defensores da obra, como empresários e comerciantes. E com as consequências mais danosas do que imaginavam.

Dona de um hotel, Elismar Carvalho precisou de atendimento médico cerca de um mês atrás. Percorreu todos os hospitais e não conseguiu, mesmo tendo um plano de saúde. “A situação aqui ficou desse jeito. A cidade não estava preparada para o que vinha acontecendo”, diz ela.
No Hospital Municipal São Rafael há o exemplo do que vem ocorrendo com a cidade de Altamira. Havia leitos de reserva. Atualmente há fila de espera. “Nós reservávamos dois a três leitos para as emergências e o mesmo número para o isolamento. Agora temos mais de 70 pessoas na fila de espera apenas para traumatologia”, diz o diretor de Enfermagem do hospital, Edivar Teixeira de Lima Filho.
De 200 atendimentos por dia, o hospital passou a atender 500 pessoas em média diariamente. E só há um médico a mais. No Hospital Regional, de alta complexidade, não há leitos para mais ninguém. No centro de diagnóstico para AIDS houve aumento na entrada de pacientes com quadro da doença nos últimos dois meses, revela uma enfermeira.
É sintoma das mudanças ocorridas no município. A Prefeitura de Altamira estima que houve um aumento de quase 50% na população da cidade. A maioria maranhenses, seguidos de goianos e paraenses de outros municípios. Muitos sem qualificação adequada. Não à toa, vários cursos de qualificação, muitos gratuitos, se espalham pela cidade.
A violência é fonte de preocupação. Uma equipe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) esteve semana passada em Altamira. Viu de perto as obras. Houve reunião com representantes de organizações sociais e governamentais. Assistiu a apresentação do Plano de Segurança Pública para Belo Monte, feito pela Secretaria de Segurança Pública.
A preocupação é com o incremento populacional, cada vez mais acelerado. O que se prevê é que a expectativa de que 96 mil habitantes a mais na região, segundo Estudo de Impacto/Relatório de Impacto Ambiental seja superado em muito. Saúde, segurança pública e educação são os setores mais impactados. Só no canteiro de obras já existem cerca de 10 mil operários.
O que seria motivo de comemoração se tornou desconfiança. É como se a ficha começasse a cair. A Associação Comercial de Altamira, uma das principais defensoras da obra, passou a olhar com menos entusiasmo e mais desconfiança para as consequências da usina. “A gente percebeu que tem de correr atrás para garantir nossos direitos e estamos fazendo isso”, diz a presidente da Associação Maria do Perpétuo Socorro Martins. Segundo ela, a etapa é de cobranças e fiscalização. “Há vários acordos que não estão sendo cumpridos. As casas, por exemplo, para o remanejamento de pessoas, ainda não foram erguidas”, diz ela.
A Associação Comercial reclama que a cidade poderia ser mais acionada para dar conta dos serviços necessários. Mas não houve preparação adequada para isso. “Às vezes em reunião, o pessoal da empresa pede coisas pra ontem, como 20 mil marmitas, por exemplo. Como é impossível cumprir isso assim, eles compram de São Paulo. É só um exemplo”, diz ela. Para intermediar essa negociação, Altamira passou a receber apoio da Rede de Desenvolvimento de Fornecedores – Redes. A ideia é dar apoio para a compra de produtos locais pelo consórcio. “Tem coisas que a gente pode atender, mas eles não fazem previsão de antecipação de demanda”, reclama a presidente. 
“Os investimentos da Norte Energia em obras, equipamentos, materiais e pessoal nos onze municípios da área de influência de Belo Monte já alcançaram em pouco mais de um ano um total de R$ 292 milhões, contabilizados até setembro deste ano. Em Altamira, o valor firmado em diversos contratos e termos de acordo foi de R$ 91.632.742,00, incluindo construção de escolas, compra de medicamentos para o Hospital Municipal, entrega de postos de saúde e equipagem do Departamento de Trânsito municipal”, argumenta a empresa Norte Energia. Segundo a empresa, no núcleo urbano de Altamira, o saneamento básico, após a assinatura de convênio da Norte Energia com a Cosanpa e com a Prefeitura, está sendo iniciado. “Com isso haverá a universalização desses serviços para a população que hoje conta com apenas 18% de água tratada e sem rede de esgoto”, explica o consórcio.
Em nota, a empresa diz que as iniciativas, já concluídas ou em andamento, cumprem o previsto no Projeto Básico Ambiental (PBA) e nas parcerias firmadas com as prefeituras e entidades civis da região para reforçar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, segurança, infraestrutura e saneamento básico, entre outras. Além desses recursos devem ser somados os do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X) que destina R$ 500 milhões da Norte Energia para os 11 municípios da área de influência de Belo Monte e outros R$ 2,5 bilhões em programas do governo federal.
Se a lua de mel entre os principais defensores da construção da usina em Altamira e o consórcio construtor está apresentando fissura no relacionamento, o mesmo não se pode dizer para os trabalhadores. Próxima a um dos canteiros, onde máquinas pesadas adentram a floresta e transformam a paisagem, a grande barraca em lona chama a atenção. Às margens da mata e da estrada recente, a Boate Xingu anuncia atrações como strip-teases com lindas moças e ambiente de fino trato. Um retrato aproximado do que se transformou o Xingu.
(Diário do Pará)

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