quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Barbalhos e baratismo

Simão Jatene e Jader Barbalho: eleições 2014.Jader Barbalho surpreendeu ao quebrar o isolamento de uma década e voltar a discursar da tribuna do parlamento federal. É um ato de otimismo ou resulta do receio de que não consiga eleger o seu sucessor, assegurando poder para a quarta geração baratista no Pará.
Jader Barbalho estreou no dia 16 de outubro na tribuna do Senado, quase dois anos depois de ter assumido o mandato. Foi também o seu primeiro discurso no parlamento federal em mais de 10 anos. Antes, quando era deputado federal, ele se limitou a atuar nos bastidores e em comissões, um contraste com sua intensa exposição pública até 200l.
Foi nesse ano que ele renunciou ao mandato de senador para não se expor ao risco de cassação devido a acusações de corrupção. Já renunciara à presidência do Senado, que ocupou por pouco tempo.
Jader admite que conseguiu retomar sua carreira política, já com 47 anosdeduração, graças à “benevolência” do povo. Foi muito mais do que bondade. Desde quando se tornou deputado federal pela primeira vez, em 1974, acusações de enriquecimento ilícito obtido graças aos cargos públicos que ocupou acompanham o líder do PMDB, hoje com 68 anos de idade. Como Jader se limita a litigar em juízo nos processos instaurados com base em ações propostas contra ele, sem se preocupar em desfazer concretamente cada item do extenso rol de denúncias, passou a ser estigmatizado como corrupto.
A má fama extrapolou para sua apresentação como o político mais corrupto do Brasil quando ele bateu de frente com o senador Antônio Carlos Magalhães, que não o queria na presidência do Senado. Não há uma análise objetiva sobre o enriquecimento dos políticos que já foram levados às barras da justiça por corrupção para estabelecer, com rigor técnico, um ranking dos que mais roubaram.
O título foi dado sem questionamento a Jader quando seu conflito com ACM se acirrou e os dois travaram no Senado as polêmicas mais violentas registradas na casa nos últimos tempos. Ficou evidente que vários jornalistas investiram contra o político paraense não por convicção quanto à acusação de corrupção, nem principalmente porisso. Queriam agradar o soba baiano, ou faziam-lhe o jogo. Era mais fácil e conveniente bater em Jader, que sempre se manteve surdo à litania da corrupção.
Essa atitude lhe acarretou uma imagem negativa em âmbito Nacional como nenhum outro político carregou. Mesmo quando denúncias feitas contra ele se mostravam claramente inconsistentes ou inconclusivas, a imprensa as divulgava como sendo a mais pura verdade. Deram a essas notícias um destaque não reservado a políticos controversos de muito maior envergadura do que Jader.
Como os processos judiciais se avolumassem, obrigando-o inclusive a grandes gastos para manter na sua defesa advogados como o ex-ministro do TSE, Eduardo Alckmin, e o ex-juiz federal Edson Messias, Jader optou por evaporar da cena nacional. Tornou-se o maior gazeteiro da Câmara Federal e do Senado. Virou motivo de chacota para os inimigos figadais, os Maiorana, que não param de fustigá-lo em seus veículos de comunicação.
Jader resistiu a se expor de novo até a semana passada, quando surpreendeu a todos ao ocupar de novo a tribuna do Senado. A iniciativa não mereceu a atenção da imprensa nacional nem teve grande destaque no jornal do próprio senador, o Diário do Pará. Justifica-se a cautela. É preciso medir a reação a uma iniciativa ainda tímida para arriscar uma investida maior.
Jader falou sobre o programa Mais Médicos, do governo federal. Deu uma opinião morna, vendo pontos positivos e negativos. É nítida a impressão de que se empenha em mudança de imagem: agora a quer ponderada, analítica, voltada para o interesse público, quase técnica. Disse que “aprendeu muito” desde seu retorno à vida política. O aprendizado incluiria se livrar da carapaça ruim, que se projeta quase inconscientemente sempre que seu nome é referido. Jader quer reescrever sua biografia.
Alguns a conseguiram. Getúlio Vargas, por exemplo. Derrubado do poder pelos militares em 1945, depois de 15 anos como ditador, ele foi o maior sucesso da eleição geral seguinte. Escolheu assumir o Senado. Fez um discurso e voltou ao autoexílio na região de fronteira do Rio Grande do Sul para se poupar e limar sua biografia. Retornou para se eleger presidente pelo voto democrático e modelar seu busto com o cinzel à esquerda, antecipando-se (em versão adaptada e restrita) ao Salvador Allende de duas décadas depois.
Antes dele, sem o mesmo êxito, Arthur Bernardes fez o mesmo. Foi o primeiro e único presidente a cumprir todo seu mandato de quatro anos sob estado de sítio, enfrentando revoltas militares que canalizavam a insatisfação e repulsa das classes médias urbanas. Eleito senador, assumiu a liderança das grandes campanhas nacionalistas, algumas estreitas e equivocadas, mas que lhe garantiram notoriedade.
Para Adhemar de Barros, consagrado pelo slogan “rouba, mas faz”, não restou alternativa senão apostar no filho. O povo reagiu dizendo que Adhemar de Barros Filho iria devolver o que o pai surrupiou do erário. Com tal prognóstico, não foi longe, embora tenha ficado ainda mais rico do que o pai, sem a mesma marca malsinada. Jader estaria fazendo o mesmo, apostando no filho?
Não há dúvida de que ele não tem outro para sucedê-lo. Segundo fontes próximas, a cotação de Hélder Barbalho estaria em ascensão e ele teria boas condições de se apresentar no próximo ano para disputar com Simão Jatene o governo do Estado. Mas é duvidosa essa informação. Hélder teve dois mandatos como prefeito de Ananindeua, o segundo maior colégio eleitoral do Estado. Não elegeu o seu sucessor e sua administração tornou possível a volta do principal inimigo dos Barbalho no município, o atual prefeito Manoel Pioneiro.
É bem possível que o uso intensivo e inteligente dos meios de comunicação da família tenha permitido a Hélder se tornar mais conhecido e impressionar o público queouve seu longo programa, que vai ao ar todos os dias, atingindo todo o interior do Estado. Sua imagem pode ser retocada para se distinguir da do pai, embora não muito profundamente. De qualquer forma, se depender dos seus próprios recursos, que são limitados pessoalmente, ele surgirá na campanha de 2014 em condições bem inferiores às de Jatene.
Pesando esses fatores, Jader Barbalho deve ter concluído que já não pode se manter à margem. Seus artigos semanais e suas cartas às autoridades do governo federal o condenam a ser personagem secundário do jogo eleitoral do ano que vem. Com ele será difícil o filho ganhar. Sem ele, o mais provável é que perca.
O bicho está em cima dessas alternativas: ou pega ou come. Jader decidiu apostar na volta ao centro do palco, com alto risco, porque quer continuar no (e com o) poder, canalizando recursos do governo federal patista. Quer passar o bastão à quarta geração do baratismo no Pará, mas o que pode parecer um avanço será, de qualquer maneira, independentemente do desfecho, um retrocesso.
Lucio Flavio Pinto  

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