Manuel Dutra: “Rio Tapajós está sendo gravemente poluído”

Professor Manuel Dutra
Professor Manuel DutraPreocupado com a contaminação do leito do rio Tapajós em decorrência da atividade garimpeira nos municípios de Itaituba e Jacareacanga, no Oeste do Pará, o jornalista e professor Manuel Dutra elaborou e enviou uma carta aberta ao governador do Pará reivindicando a preservação do manancial. De acordo com o professor Manuel Dutra, a carta se consolida como um pedido público em favor das populações dos municípios do vale do Tapajós, da saúde, da economia e da natureza da região Oeste do Pará. Diante da situação, o professor Manuel Dutra concedeu entrevista exclusiva à nossa reportagem, onda aborda sobre a situação.
Veja a entrevista na íntegra:
Jornal O impacto: Como surgiu a idéia da elaboração de uma carta para ser enviada à autoridade máxima do Pará, pedindo um estudo sobre a contaminação do Rio Tapajós, pelos garimpos?
Manuel Dutra: Com a forte retomada dos garimpos no médio e alto Tapajós, há cerca de 4 anos, voltaram as notícias sobre mudança de cor das águas do rio por causa do derrame de barro e despejo de produtos químicos venenosos. Por toda a região Oeste do Pará se fala nisso, a mídia informa, na internet circulam fotos. Então, um grupo de pessoas residentes em Santarém e Belém decidiu tirar a prova dos nove e, para isso, idealizou uma carta, ou uma Petição Pública ao governador do Pará, exigindo a realização de uma ampla pesquisa científica que comprove ou não a poluição. Nós estamos convencidos de que o Tapajós está de novo sendo gravemente poluído, como já ocorreu há 25 anos, com sérios prejuízos para a saúde pública e a economia regional. Caso isso volte a ocorrer, o desastre será maior do que duas décadas e meia atrás. Por isso queremos uma prova científica da poluição, por meio de testes de qualidade das águas do Tapajós e dos seus principais afluentes.
Jornal O Impacto: O senhor acredita que falta mais empenho por parte dos órgãos ligados ao meio ambiente para que a prática abusiva da extração do ouro seja feita nos moldes da legislação ambiental?
Manuel Dutra: O que de fato existe é uma grande incoerência, uma irracionalidade sem tamanho. Veja, os investimentos privados e públicos no turismo crescem na região Oeste, constroem-se hotéis e pousadas, o turismo já oferece milhares de empregos por toda a região. Ao mesmo tempo o governo permite que a garimpagem derrame milhões de toneladas de barro e químicos dentro do Tapajós, que é justamente o eixo do crescimento da indústria do turismo aqui. Quem vai fazer turismo se as praias e as águas dos rios continuarem a ficar enlameadas? A pesca profissional e de recreio, para onde irá? E as praias brancas do Tapajós, como ficarão? Há necessidade de empenho das autoridades em dialogar com a sociedade regional, com os empresários e com as organizações da sociedade civil no sentido discutir que tipo de economia queremos para esta região. Do jeito que está, não dá, pois a economia garimpeira ameaça as outras formas de economia, além da saúde pública e a produção de alimentos.
Jornal O Impacto: A saída para a conservação da biodiversidade da Bacia do Tapajós seria a extinção da atividade garimpeira?
Manuel Dutra: Os trabalhadores garimpeiros precisam trabalhar e viver com as suas famílias. O governo e a sociedade devem desenvolver programas que ofereçam àquelas pessoas alternativas de trabalho sustentável, sem necessidade de permanecerem na garimpagem, uma atividade prejudicial à saúde do garimpeiro, como todos sabemos. O ideal é que a garimpagem mecanizada atualize os seus métodos de lavra com tecnologias avançadas que não causem tanto dano a outras formas de economia. Além disso, há o fato de que, nos últimos 45 anos, a região do Tapajós produziu quase 800 toneladas de ouro, num valor de cerca de R$ 80 bilhões. E para onde foi essa montanha de ouro e de dinheiro? Todos sabemos que nesta região o que ficou foi tão pouco diante da pobreza e das doenças causadas pela garimpagem naqueles tempos. Para benefício dos trabalhadores do garimpo e dos mais de 500 mil habitantes dos sete municípios diretamente afetados, governo e sociedade precisam discutir isso tudo.
Jornal O Impacto: O que poderá acontecer com os moradores de diversas comunidades ribeirinhas, caso as autoridades não tomem uma atitude em relação à contaminação das águas do Tapajós?
Manuel Dutra: Mais ou menos a mesma coisa que já aconteceu no passado, nas décadas de 1970 a 1990, quando o Tapajós e seus principais afluentes viraram um lamaçal, além do envenenamento por causa do uso do mercúrio na amalgamação do ouro. Rios sujos, peixes e a cadeia alimentar contaminados, inúmeros casos de doenças neurológicas, crianças nascidas com problemas cerebrais que logo morriam. Espécies como o tucunaré e o pirarucu foram as mais afetadas, transmitindo doenças às pessoas. Isso foi comprovado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), por pesquisadores da Universidade de Kumamoto, do Japão, e pelo médico santareno, já falecido, Fernando Branches. Essas coisas já aconteceram e a pergunta que hoje se faz é: tudo isso voltará, com uma carga ainda mais pesada?
Jornal O Impacto: As praias de Santarém sofrerão impactos devido à contaminação das águas do Tapajós?
Manuel Dutra: Há 25 anos as praias de Alter do Chão ficaram amareladas. Quanto mais para cima, mais as praias perderam a beleza que têm. Naqueles anos, a garimpagem reduziu-se muito por causa das medidas econômicas do governo Collor, inclusive com a retenção da poupança, e também por causa de uma forte queda nos preços do ouro no mercado internacional. Hoje o ouro está com bom preço e a situação dos investidores muito melhor. Por isso a mineração de ouro retorna com força. Mas os tempos são outros e é possível retirar ouro sem fazer tantos estragos às outras formas de economia e à saúde pública, inclusive a dos próprios trabalhadores dos garimpos.
Fonte: RG 15/O Impacto

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